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Opinião | Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago

Autor(a): José Saramago
Editora: Porto Editora 
Onde comprar: Wook

Como tenho feito todos os anos desde que tenho o canal, este ano li mais um livro da obra de José Saramago, para participar no projeto #lersaramago da Cláudia. E este ano o livro escolhido foi Ensaio sobre a Cegueira por ser um livro tão bem falado do autor e que eu já queria ler há imenso tempo. E em Junho li Com o Mar por Meio: Uma Amizade em Cartas, onde Saramago referia que estava a escrever este livro e que não estava a ser fácil. O que me deixou ainda mais curiosa. Do autor já li As Intermitências da Morte, que gostei mas não me arrebatou; Objeto Quase, um livro de contos; O Conta da Ilha Desconhecida e A Maior Flor do Mundo que gostei muito.

O Ensaio sobre a Cegueira tinha tudo para eu gostar e foi mesmo isso que aconteceu, porque Saramago criou um cenário apocalíptico. Adorei este livro! Tudo começa quando um homem fica cego de um momento para o outro, mas uma cegueira diferente, pois ele via tudo branco. Esta cegueira branca começa a espalhar como uma epidemia e para controlar o surto da doença, o governo manda isolar todos os cegos num antigo manicómio. No início temos um pequeno grupo de pessoas, que até se conseguem organizar mesmo estando em condições adversas. Mas com a chegada de mais cegos, instala-se o caos, sendo a sobrevivência o objetivo principal. E muita coisa se vai passar e fazer-nos pensar como vivendo numa sociedade como a nossa, ao perdermos algo tão “básico” como a visão, poderá levar-nos a extremos e a perdermos a humanidade. 
“Se não formos capazes de viver inteiramente como pessoas, ao menos façamos tudo para não viver inteiramente como animais.” 
No entanto, existe uma pessoa que continua a ver, a mulher do médico e acaba por ter a responsabilidade de ter olhos, quando os outros os perderam. Na minha opinião, isto não é mais do que uma metáfora para a nossa realidade, porque nós olhamos mas não vemos de verdade. A frase retirada do Livro dos Conselhos – “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.” – que está escrita na contra-capa do livro ajuda-nos a refletir na mensagem que o Saramago quis transmitir com este livro.

Porque será que a mulher do médico nunca cegou?! Talvez porque ela via realmente com olhos de ver o que se passava com o próximo, ela preocupou-se sempre com os outros, não olhando só para si própria, pois quem só vê aquilo que lhe diz respeito é cego – “o certo e o errado são apenas modos diferentes de entender a nossa relação com os outros, não a que temos com nós próprios, nessa não há que fiar“. Será preciso cegarem-se todos, para nós vermos realmente a essência de cada um?

“já éramos cegos no momento em que cegámos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos”
É de referir ainda que neste livro, o autor não dá nomes às personagens, conhecemos por o primeiro cego e a sua mulher, o médico que o viu e a sua mulher, a rapariga dos óculos escuros, o velho da venda preta e o rapaz estrábico. E também não é dada a informação onde e quando decorre a história. O que torna o livro intemporal com uma história sempre actual
Este livro do Saramago fez-me refletir imenso e fazer esta opinião não foi fácil de todo, porque foi uma leitura que me marcou mesmo. Um livro realmente angustiante, violento, cheio de cenas fortes e, por vezes, nojentas mesmo. Agora percebo a dificuldade do autor em escrever este livro. A escrita do autor é fantástica, mesmo com a falta de marcação dos diálogos e todos os “defeitos” que falam da sua escrita. A mim só fez com que lê-se mais rápido. E sem qualquer dúvida José Saramago é um grande escritor. A sua forma inteligente e muitas vezes irónica de retratar os problemas da nossa sociedade é brutal. 
Recomendo este livro para quem ainda não leu nada do autor e quer começar. E quem tiver curiosidade vejam esta entrevista, onde Saramago fala como surgiu a ideia de escrever este livro. Agora tenho mesmo que ver a adaptação cinematográfica! Já vi o trailer e gostei da escolha dos actores. 
Pontuação: 

Qual será o próximo livro que vou ler do Saramago?! Talvez O Memorial do Convento porque não o li na escola e se passa na minha terra, devendo ser uma leitura obrigatória para mim. Ou talvez leia Ensaio sobre a Lucidez.

Boas leituras!

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3 Comments

  • Reply Ensaio sobre o Desassossego

    Considero o "Ensaio sobre a Cegueira" O meu livro preferido… tenho outros que adoro igualmente, também "As Intermitências da Morte" do mesmo autor, mas este tocou-me bem no fundo do meu coração! Acho um livro incrível, e sou completamente fã da escrita do Saramago

    Beijinhos,
    Ensaio Sobre o Desassossego

    Julho 23, 2018 at 21:06
  • Reply Mariana Leal

    'Ensaio sobre a Cegueira' é, a par com 'O Evangelho Segundo Jesus Cristo', dos meus livros preferidos do autor e talvez dos meus preferidos de sempre. Acho que passaste muito bem a mensagem e as sensações que o livro transmite, não é muito fácil de fazer! EU ainda não me atrevi :p
    Este ano li o 'Caim', não me arrebatou mas é uma leitura engraçada e mais curta 🙂 O meu próxima há-de ser também, provavelmente, 'Ensaio sobre a lucidez' 😀

    Julho 24, 2018 at 9:14
  • Reply Maria

    Adoro esse livro, já li bastantes de Saramago, esse será o preferido, a par do Memorial do Convento, O Envagelho Segundo Jesus Cristo, As Intermitências da Morte…. Terminei por estes dias O Ano da Morte de Ricardo Reis, já não achei tão bom (ou eu não estava virada para uma escrita tão densa como aquele livro).
    Dele, os que menos gostei foi A Clarabóia e A Caverna.
    Este ano li também Objecto Quase e Todos os Nomes, gostei de ambos mas fiquei surpreendida com os contos do primeiro livro.

    Julho 30, 2018 at 9:25
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